Porque dedicar o Dockanema à re/vivência da memória?
por Pedro Pimenta

Desafiamos o espectador que nos acompanhar neste 3º Festival do Filme Documentário de Maputo  a descobrir o lugar e o papel da Memória que estão, patentes ou encobertos, em cada filme.

É parte da natureza do filme documentário clássico ser um suporte de memórias individuais e um contributo priveligiado para a Memória Colectiva com a qual se faz a História. E foi neste contexto, sob influência e mesmo pressão das várias iniciativas sobre a Memória que estão a ocorrer aqui e agora, à nossa volta, que surge o Dockanema também dedicado à Memória.

Vivemos um tempo em que se priveligia o efémero contra o intemporal, o superficial contra o profundo, e se cultiva a leveza e a ligeireza nos costumes, nas relações sociais ou no exercício intelectual. Essa tendência está diáriamente à nossa volta, nos media de todos os géneros e formas, e caracteriza a convivência com os outros. Cultiva-se uma humanidade uniforme e homogénea, que ande para a frente e nunca páre a olhar para trás, como um exército de “robots”. E no entanto é o nosso próprio instinto que nos impele a resistir a esta tendência que aniquila a própria essência do ser humano.

Não podemos viver sem referências individuais e colectivas. Ciclicamente sentimos-lhe a falta e vem-nos o impulso de passar os olhos pelos livros da nossa infância, pela caixa das fotos velhas nunca arrumadas, pelos lugares-segredos da nossa adolescência. É isso que faz os documentários que seleccionamos.

Portanto, desta vez seleccionámos filmes na perspectiva de entender mais sobre a relação entre a Memória e o Documentário, não numa perspectiva teórica apenas, mas como material muito concreto e utilitário. Este não é um esforço nosso, original ou isolado. À nossa volta multiplicam-se inciativas várias que nos remetem ao passado histórico, uma preocupação nacional de recuperar a nossa Memória colectiva. É assim com as vidas dos heróis da luta pela independência, de quem é necessário ter mais do que um nome de rua na cidade; foi assim com o Autor que acaba de dedicar um livro à reflexão sobre o episódio dos campos de reeducação na nossa história recente.

E mais perto de nós, é assim com a iniciativa do Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema, que finalmente está a concretizar a recuperação do arquivo de imagens cinematográficas que até há bem pouco tempo corria o risco de ficar em cinzas para sempre.

Podemos dizer que, mais uma vez, neste 3º Festival homenageamos o documentário moçambicano. Ao trazermos o inesquecível Kuxa Kanema e outros titulos que estão nas memórias de tantos moçambicanos que eram jovens nos anos 70, oferecemos o nosso contributo para a preservação da nossa imagem como nação e para a recuperação das nossas referências passadas que nos ensinam que aquilo que construimos com as nossas mãos no passado, está ainda ao dispor da geração que se segue.

Finalmente, mas não de menor importância, esta 3ª edição do Dockanema beneficia da experiência dos dois anteriores em termos de gestão e organização. Este contínuo aperfeiçoamento, resultante da experiência e da interacção entre o espectador e nós, é também património que vai servir o cinema que fazemos em Moçambique.

O Director do Festival
Pedro Pimenta

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